Vida a bordo

Leiam com atenção: Os perigos do enjoo no mar.

Quem é do mar não enjoa, diz o poeta. Mas será mesmo?

Há alguns anos, iríamos participar da Refeno (regata Recife – Fernando de Noronha) com dezoito pessoas a bordo, no nosso antigo Catamarã de 62’. Um velejador que possuia um monocasco, resolveu alugar uma de nossas cabines para que a esposa pudesse participar. Ela sempre passou muito mal no próprio barco então ele imaginou que a bordo de um catamarã ela poderia desfrutar da regata com mais conforto. Marcelo e Luíza estavam super empolgados!
A largada da Refeno é uma festa! Os veleiro desfilam para uma multidão em terra que torcem para seus preferidos.
Preparei um almoço leve para os tripulantes e logo depois nos organizamos  para a largada.
Alguns tripulantes já a postos em seus turnos, outros na proa fotografando e outros sentados na mesa do cockpit (varanda) conversando.
Eu arrumando o barco aqui, me organizando para o jantar, acessorando Fausto, enfim, eram umas 10 Gutinhas trabalhando sem parar.
Alguns tripulantes marearam, mas tudo dentro da normalidade já esperada. Luíza, não parava de papear na mesa, comia e bebia e estava super feliz por não ter passado mal.
– Cadê seu marido Luíza, ele não vai jantar?
– Não. Preferiu ir descansar para pegar o turno durante a noite.
No café da manhã do dia seguinte, Fausto comentou que Marcelo não havia aparecido na hora de seu turno.
Alguns minutos depois Luíza me chamou em sua cabine, e lá estava a visão do inferno.
Marcelo havia vomitado todo o quarto. Provavelmente vômitos em jato porque até o teto estava sujo. Havia se cagado e se mijado. Estava com os braços abertos na cama de olhos fechados.
-Luiza, porque não me avisou antes que ele estava tão mal assim?
– Ele não deixou, disse que iria passar, mas acho que está piorando não está?
Corri para minha caixa de limpeza, peguei minhas luvas que iam até os cotovelos. Coloquei máscara (o cheio de vômito, me causa vômito), peguei a Luiza e começamos a limpar todo o quarto. Minha sorte foi que a cama era de um tecido plástificado e nada vazou para o colchão.
Trocamos a roupa de cama que foi para dentro de um saco de lixo e depois começamos a dar um banho de leito se assim posso dizer no Marcelo. Luiza o empurrava de lado e eu passava um pano úmido para retirar os dejetos. Depois um pano com sabão e depois enxaguando-o.
Ele ficou em um ambiente limpo novamente e eu corri para a cozinha para preparar um soro caseiro. Fiz um litro e entreguei a Luiza. Você têm que fazê-lo beber ok?!
Ela desceu em direção a suíte e pouco tempo depois tomei um susto. Marcelo havia jogado a garrafa com o soro caseiro em cima da pia, e com uma cara de ódio gritou:             -Não sou homem de tomar soro caseiro!
Virou as costas e começou a seguir para a suíte quando a minha ficha caiu e a raiva subiu.
-Há uma hora atrás você não tinha forças nem para se virar e eu poder limpar a sua bunda seu ingrato! Mas agora você tem forças para vim me dizer desaforos?
– Luiza, ele têm que tomar o soro caseiro, se não o fizer, não temos responsabilidade para com a saúde dele, entendeu? Entendeu?
-Sim, entendi. Ele vai tomar.
E antes de descer as escadas ela riu e falou quase cantando: Ele passou mal e eu não!
Quando avistamos Fernando de Noronha, Marcelo estava na proa super animado. Só faltava gritar terra a vista! Como se tivesse ficado acordado durante toda a viagem.
Pensei que depois do que ele havia passado, iria desistir da volta, mas não. Embarcou mas deve ter se precavido com medicamentos, ficou derrubado, mas não vomitou o quarto inteiro novamente.
O Marcelo, que era um velejador com uma certa experiência em monocascos nunca iria imaginar que passarial mal em um cataramã que também balança, mas um balanço diferente do que ele estava acostumado. E acho que o pior de tudo, foi ter o seu ego ferido.

Essa é só uma das várias histórias que eu poderia passar dias contando. Histórias que eu vivi e que ouvi de outros veleiros.

Tripulantes que tentaram se jogar no mar, que se trancaram dentro do banheiro e não parava de chorar, que quebrou o barco inteiro, que mudou a rota no GPS… Diversas situações que colocaram suas vidas e as dos outros em risco.
Todos esses tripulantes, das mais variadas profissões e condições financeiras  tinham algo em comum: Não conheciam a sí mesmos em uma situação completamente diferente do que estavam acostumados. Desconforto, água por todos os lados, balanço, barulhos estranhos, enjoo, são os passo-a-passo para o pânico se instalar e a reação de cada pessoa ao pânico é uma caixinha de surpresas ao capitão.

Mas o que eu quero nesse texto de hoje é alertar para o enjoo a bordo. Muitos de nós velejadores que já moramos a bordo há muitos anos desdenhamos do  “sea sick” doença do mar, que até então, eu, sinceramente não sabia que poderia levar uma pessoa a morte.
Os meus tripulantes raramente enjoam e quando fazem, percebo que o problema é mais psicológico (o medo) do que físico. Nada que algum remédio ou o bendito soro caseiro, para evitar a desidratação não tivesse resolvido até então.

Cerca de dois meses atrás, um casal que recém haviam comprado um veleiro monocasco, entrou em contato previamente perguntando se poderiam nos conhecer pessoalmente. Eles vieram de Paraty até onde estamos ancorados e passamos boas horas juntos conversando.
Ele skipper experiente e ela nunca havia velejado na vida, inclusive, havia passado mal da perninha Paraty – Angra. E eles estavam esperando uma frente fria para tentarem seguir direto a Salvador.
Para resumir a longa história, recebi essa mensagem da moça, quando perguntei como ela estava, já em casa em Salvador:

“Comecei a vomitar muito, 3 dias vomitando, não comia nada e so bebia água porém botava tudo pra fora, até que chegamos em Caravelas no sul da Bahia e fui para o hospital, só que lá não tinha recurso nenhum e meus pais foram me buscar, mas foi quase tarde demais. Eu tava morrendo. Tive parada de alguns órgãos. Fui  para Vitória Conquista já na UTI, passei 21 dias na UTI. Tive que fazer diálise, receber sangue. Aí veio a cetoacidose.Meu intestino parou, o rim, fígado e de brinde úlceras gástricas até a boca. Além de vomitar muito sangue.Desaprendi a andar, algumas frases não sabia completar…Tô fazendo fisioterapia e já estou andando, devagar ainda, mas estou.Só dando trabalho aqui.
E mole por conta de uma anemia fortissima.
Mas to bem, to viva e continuo abusada! Rsrsrs”

A menina quase morreu, está pesando 36 kg e ainda têm senso de humor!

Depois de ouvir esse relato, vou me preparar melhor para tais acontecimentos que geralmente acontecem em alto mar. Sou técnica de enfermagem, mas preciso de uma reciclagem.
Em um caso como esse, penso que seria necessário soro na veia e injeção de alguma medicação contra os vômitos contínuos.
Esse post teria terminado aqui, mas comentei sobre o assunto em um grupo de vela feminino no qual participo e o relato da moça acima não foi o único. Outras pessoas ficaram meses internados por consequências da doença do mar.

Que sirva de alerta. Que não seja tratado como frescura por alguns capitães, mas que principalmente os tripulantes, antes de embarcarem em uma travessia, se preparem.  Escutem e acatem os conselhos dos velejadores mais experientes.

PS: Os nomes dos personagens foram mudados.

Comentários, sugestões e críticas construtivas são bem vindos!
Até semana que vem!

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